Bia Abramo
Free-Lance para a Folha
O que faz uma canção pop crescer de tamanho até virar uma espécie de hino? Obviamente, a resposta exata não é fácil, mas alguma coisa como uma conjunção feliz de melodia adequada com palavras certas e circunstância histórica propícia deve entrar na equação.
Olhando daqui, a frio, "Smells Like Teen Spirit" tem, com certeza, os primeiros dois elementos. Mas, de músicas que pegam e letras bacanas, a história da música pop está cheia. Talvez seja a história o que diferencie de fato uma canção pop de "a" canção de uma época e/ou geração.
No Brasil, quando "Smells..." foi lançada em 91, o Nirvana ainda era uma das várias bandas de Seattle. Por aqui, não haviam muitas novidades: o rock brasileiro dos anos 80 já tinha dado sinais de cansaço, o underground girava em círculos, com guitar bands "sonicyouthianas" mais ou menos simpáticas, e parte do povo tinha se bandeado para o que ainda se chamava de dance music. Ah, sim, já tinha o Sepultura, mas para muitos de nós, já um tanto passados da adolescência e mais ou menos criados no pós-punk inglês, a adesão ao Sepultura era mais por simpatia política (banda independente, brazuca) do que por afinidade estética.
Foi em 92, à medida que "Nevermind" ia passando de mão em mão, tocando em festas e sendo comentado nos botecos, que o impacto foi se alastrando. Ali havia uma banda que tinha agressividade e doçura, cujo desespero soava autêntico e cujas letras tinham uma lassidão inteligente. Ali havia um cantor pronto para o sacrifício ao vivo, em quem o cálculo pop parecia suplantado pela angústia verdadeira. E ali, sobretudo, havia cinco minutos e um segundo de auto-ironia, tédio e raiva, culminando num apelo por "negação, negação". Parecia punk, mas era mais melódico. Parecia rock e era, mas era também menos pomposo. Parecia pop, mas ele berrava - e o menino, ainda por cima, era uma belezinha.
Não pode ser apenas uma coincidência de datas o fato de, neste mesmo ano em que a revolta voltou à música pop por obra do Nirvana, os jovens brasileiros protagonizaram as manifestações pelo impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. Havia uma vaga de revolta juvenil de volta às ruas - e "Smells Like A Teen Spirit" foi seu hino.
Fonte: Folha de S. Paulo – Folhateen – 17 de setembro de 2001
Free-Lance para a Folha
O que faz uma canção pop crescer de tamanho até virar uma espécie de hino? Obviamente, a resposta exata não é fácil, mas alguma coisa como uma conjunção feliz de melodia adequada com palavras certas e circunstância histórica propícia deve entrar na equação.
Olhando daqui, a frio, "Smells Like Teen Spirit" tem, com certeza, os primeiros dois elementos. Mas, de músicas que pegam e letras bacanas, a história da música pop está cheia. Talvez seja a história o que diferencie de fato uma canção pop de "a" canção de uma época e/ou geração.
No Brasil, quando "Smells..." foi lançada em 91, o Nirvana ainda era uma das várias bandas de Seattle. Por aqui, não haviam muitas novidades: o rock brasileiro dos anos 80 já tinha dado sinais de cansaço, o underground girava em círculos, com guitar bands "sonicyouthianas" mais ou menos simpáticas, e parte do povo tinha se bandeado para o que ainda se chamava de dance music. Ah, sim, já tinha o Sepultura, mas para muitos de nós, já um tanto passados da adolescência e mais ou menos criados no pós-punk inglês, a adesão ao Sepultura era mais por simpatia política (banda independente, brazuca) do que por afinidade estética.
Foi em 92, à medida que "Nevermind" ia passando de mão em mão, tocando em festas e sendo comentado nos botecos, que o impacto foi se alastrando. Ali havia uma banda que tinha agressividade e doçura, cujo desespero soava autêntico e cujas letras tinham uma lassidão inteligente. Ali havia um cantor pronto para o sacrifício ao vivo, em quem o cálculo pop parecia suplantado pela angústia verdadeira. E ali, sobretudo, havia cinco minutos e um segundo de auto-ironia, tédio e raiva, culminando num apelo por "negação, negação". Parecia punk, mas era mais melódico. Parecia rock e era, mas era também menos pomposo. Parecia pop, mas ele berrava - e o menino, ainda por cima, era uma belezinha.
Não pode ser apenas uma coincidência de datas o fato de, neste mesmo ano em que a revolta voltou à música pop por obra do Nirvana, os jovens brasileiros protagonizaram as manifestações pelo impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. Havia uma vaga de revolta juvenil de volta às ruas - e "Smells Like A Teen Spirit" foi seu hino.
Fonte: Folha de S. Paulo – Folhateen – 17 de setembro de 2001
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