CRÍTICA
Bia Abramo
Colunista da Folha
E ela ganhou um Globo de Ouro, superando a quadra de "Desperate Housewives". Quando esta coluna destacou a atuação de Mary-Louise Parker (""Weeds" ironiza os paradoxos da América", em 20 de novembro de 2005), a comparação entre as atrizes de ambas as séries já se impunha.
Não por acaso, elas, as séries, são da mesma linhagem cômico-amargas e elas, as atrizes, também. Os dois seriados conseguiram criar personagens mulheres muito mais interessantes do que a média. E, novamente, nos dois casos, as atrizes chamadas para os papéis destoam do comum.
Aliás, não foi só essa que destacou os bons papéis e atuações. Todos os prêmios para atrizes e atores desta última edição do Globo de Ouro parecem indicar o que, esperemos, firme-se como tendência: trabalhos mais consistentes de interpretação e de personagens nas séries de TV.
Por exemplo, a vencedora na categoria de atriz dramática, Geena Davis, convence até em uma série fraquinha como "Commander in Chief". Entre os homens, o premiado Hugh Laurie é quem empresta ao doutor House a ambigüidade necessária para que o personagem não seja totalmente repugnante.
De forma similar, o melhor papel masculino em comédia é o de Michael Scott, interpretado por Steve Carell, como o gerente cheio de empáfia e de cinismo da versão norte-americana de "The Office". Novamente, uma espécie de modelo dessa América às avessas que os seriados mais adultos vêm conseguindo registrar.
Mas o Globo de Ouro foi mesmo das mulheres engraçadas e esquisitas -as quatro donas-de-casa de Whisteria Lane e a traficante mãe-de-família de "Weeds". Num certo sentido, aqui, realmente, a importância da competição é maior do que a da vitória.
Embora Mary-Louise Parker em "Weeds" esteja, de fato, alguns centímetros à frente de suas concorrentes, o fato de "Desperate Housewives" ter conseguido as quatro outras indicações da categoria também é uma vitória.
Felicity Huffman, Marcia Cross, Eva Longoria, Teri Hatcher (nessa ordem) salvaram "Desperate Housewives" da banalidade cínica em que poderia ter caído. Cada uma, a seu modo, emprestou inflexões um tantinho mais complicadas aos tipos que representam. Todas fugiram do naturalismo e do espontaneísmo que são moeda corrente da atuação em TV e souberam fazer caricatura sem estereotipia.
Mary-Louise, por sua vez, sabe tudo isso -e mais um pouco. Talvez esse algo mais seja uma fragilidade que a faz parecer estar à beira, não de um simples ataque de nervos, mas de uma desintegração mental (o que, de fato, acontecia com ela na ótima minissérie "Angels in America"), talvez seja uma espécie de graça tímida, à revelia de si mesma. O que quer que seja, foi o que os votantes do Globo de Ouro distinguiram das demais indicadas.
Fonte: Folha de S. Paulo – Ilustrada – 22 de janeiro de 2006
Bia Abramo
Colunista da Folha
E ela ganhou um Globo de Ouro, superando a quadra de "Desperate Housewives". Quando esta coluna destacou a atuação de Mary-Louise Parker (""Weeds" ironiza os paradoxos da América", em 20 de novembro de 2005), a comparação entre as atrizes de ambas as séries já se impunha.
Não por acaso, elas, as séries, são da mesma linhagem cômico-amargas e elas, as atrizes, também. Os dois seriados conseguiram criar personagens mulheres muito mais interessantes do que a média. E, novamente, nos dois casos, as atrizes chamadas para os papéis destoam do comum.
Aliás, não foi só essa que destacou os bons papéis e atuações. Todos os prêmios para atrizes e atores desta última edição do Globo de Ouro parecem indicar o que, esperemos, firme-se como tendência: trabalhos mais consistentes de interpretação e de personagens nas séries de TV.
Por exemplo, a vencedora na categoria de atriz dramática, Geena Davis, convence até em uma série fraquinha como "Commander in Chief". Entre os homens, o premiado Hugh Laurie é quem empresta ao doutor House a ambigüidade necessária para que o personagem não seja totalmente repugnante.
De forma similar, o melhor papel masculino em comédia é o de Michael Scott, interpretado por Steve Carell, como o gerente cheio de empáfia e de cinismo da versão norte-americana de "The Office". Novamente, uma espécie de modelo dessa América às avessas que os seriados mais adultos vêm conseguindo registrar.
Mas o Globo de Ouro foi mesmo das mulheres engraçadas e esquisitas -as quatro donas-de-casa de Whisteria Lane e a traficante mãe-de-família de "Weeds". Num certo sentido, aqui, realmente, a importância da competição é maior do que a da vitória.
Embora Mary-Louise Parker em "Weeds" esteja, de fato, alguns centímetros à frente de suas concorrentes, o fato de "Desperate Housewives" ter conseguido as quatro outras indicações da categoria também é uma vitória.
Felicity Huffman, Marcia Cross, Eva Longoria, Teri Hatcher (nessa ordem) salvaram "Desperate Housewives" da banalidade cínica em que poderia ter caído. Cada uma, a seu modo, emprestou inflexões um tantinho mais complicadas aos tipos que representam. Todas fugiram do naturalismo e do espontaneísmo que são moeda corrente da atuação em TV e souberam fazer caricatura sem estereotipia.
Mary-Louise, por sua vez, sabe tudo isso -e mais um pouco. Talvez esse algo mais seja uma fragilidade que a faz parecer estar à beira, não de um simples ataque de nervos, mas de uma desintegração mental (o que, de fato, acontecia com ela na ótima minissérie "Angels in America"), talvez seja uma espécie de graça tímida, à revelia de si mesma. O que quer que seja, foi o que os votantes do Globo de Ouro distinguiram das demais indicadas.
Fonte: Folha de S. Paulo – Ilustrada – 22 de janeiro de 2006
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